O Mundo a Tinta-da-China

Este blog é dedicado aos livros e à cultura. É feito de opiniões e não de sentenças, e deve ser lido sem preconceitos. A maior parte dos artigos foram ou serão publicados no jornal Metro. Todos os textos são da autoria de Luís Mateus, editor do jornal desportivo Maisfutebol. Esta abordagem aos livros é apenas mais uma leitura do que se lê em Portugal.

Quinta-feira, Fevereiro 2

Não tem nada para fazer ao Sábado?

Ian McEwan trouxe-nos, em 2005, uma das melhores obras do ano. “Sábado” é um livro sobre a mente humana.

“O avião sobrevoa a copa das árvores. Por instantes, o fogo lampeja festivamente por entre os ramos. De repente, Perowne lembra-se de que talvez devesse fazer alguma coisa.” É de madrugada e o neurocirurgião veio à janela porque não conseguia dormir. Daí a poucas horas, haverá uma grande manifestação contra a guerra no Iraque. Vêm-lhe à memória os atentados de 11 de Setembro. A mulher dorme tranquilamente. Henry Perowne apercebe-se de que o avião se dirige para o aeroporto de Heathrow.

Um acontecimento chocante abre a obra mais recente de Ian McEwan. Aí “Sábado” (Gradiva, 2005) não é muito diferente de “A Criança no Tempo” - uma criança é agarrada e desaparece - ou de “O Fardo de Amor” - um balão de hélio cai. Mas, desta vez, a narrativa resume-se a 24 horas, o dia 15 de Fevereiro de 2003, um sábado. Tudo acontece entre a madrugada em que vê o avião a descer e a seguinte, em que recupera mentalmente tudo o que lhe aconteceu. Não se passam décadas como em «Expiação», o livro que é considerado a sua obra-prima. Porque, afinal, num dia também pode acontecer muita coisa. E, desta vez, a figura central não é uma criança com vocação de romancista, mas um médico que não gosta de ler livros de ficção. As personagens imaginadas por Ian McEwan nunca são iguais.

A acção roda toda à volta de Perowne. É verdade que não vive sozinho. É casado com a advogada de um jornal e tem dois filhos: o músico Theo e a poetisa Daisy. Mas são praticamente ornamentais. Apenas «existem» numa única cena, um jantar familiar que comemora a edição do primeiro livro de Daisy.

Henry é neurocirurgião e adora corrigir os cérebros das pessoas. Vê para lá do crânio autênticas obras de arte. É ao exercer a sua profissão que conhece um professor iraquiano torturado pelos homens de Saddam. O encontro torna-o quase favorável à guerra iminente e contra as explicações simplistas daqueles que a querem impedir. Um acidente de automóvel leva-o a usar a sua experiência para se livrar da fúria de Baxter, um marginal com uma doença incurável. Voltariam a encontrar-se da pior maneira. Depois de assistir à humilhação de toda a família, Perowne apercebe-se de que um simples poema conseguira alterar o equilíbrio de forças. Baxter fica entre a vida e a morte. E o médico tem mais uma missão.

A escrita de Ian McEwan é exacta e complexa, capaz de nos deixar em suspenso e de, ao mesmo tempo, reflectir com ela. “Sábado” é um livro sobre a mente humana. Um dos melhores de 2005.