“Mao – A História Desconhecida” (Bertrand/Círculo de Leitores) é o regresso de Jung Chang aos livros, depois do estrondoso sucesso de “Cisnes Selvagens”. Uma investigação de mais de dez anos, que contou com a ajuda do historiador e marido Jon Halliday, sobre a vida de Mao Tse-Tung, o antigo líder comunista chinês. A chinesa está muito contente com o que traz de novo à história do seu país. Revelações surpreendentes trazidas ao mundo por uma verdadeira contadora de histórias.
- Qual é o principal objectivo deste livro?
- Sou escritora, quero escrever livros. Quando acabei “Cisnes Selvagens” quis escrever este livro. Mao parecia ser o tema provável. Parecia natural ser o próximo assunto. Dominou a minha vida e a da minha família. O meu coração estava orientado para aí. Depois, escrevi o livro e descobri tanta coisa... Espero que seja lido por muitas pessoas para que conheçam realmente quem ele foi. Na China, ainda se idolatra Mao. A China de hoje deve conhecer o que foi a China do passado.
- Sentiu que havia um capítulo ou volume por preencher na história chinesa?
- Definitivamente. A habitual descrição de Mao não explica muitas coisas. Porquê a fome? Por que morreram dezenas de milhar de pessoas entre 1958 e 1961? Por que existiu a Revolução Cultural? Por que Mao destruiu o seu próprio partido? Havia tantas coisas a responder e penso que o conseguimos.
- Da mesma forma que os músicos escrevem canções de protesto sente que este é um livro de protesto?
- É uma pergunta interessante [risos]. Este livro não é um panfleto, um catálogo dos crimes cometidos por Mao. Não pretende mostrar os números como simples números, a frio. Este livro tem paixão. Sinto paixão pela China. Sinto-me indignada com Mao pelo que fez à China...
- Então, é um livro de protesto…
- Não... [risos] Este livro decifrou muitos enigmas, muitos mistérios da história chinesa. Dá uma resposta satisfatória a muitos puzzles. É um trabalho de detective, não um trabalho de protesto.
- Trata-se de um segundo capítulo de “Cisnes Selvagens”?
- Acho que é uma continuação natural.
- Tem a consciência de que provavelmente serão poucos os chineses que vão ler este livro? E dez anos é muito tempo, sentiu alguma vez que todo o seu esforço não valia a pena?
- Estou agora a traduzir este livro para chinês para que seja publicado em Taiwan. A China não pode verificar todas as malas de viagem... Estou convencida de que muitos chineses vão ler este livro. “Cisnes Selvagens” também foi banido na China e muitas cópias chegaram aos chineses. Havia inclusive duas delas pirateadas. Toda a gente está interessada em saber mais sobre Mao, até mesmo longe do meu país. Nos outros onde já foi publicado foi best-seller. Isso mostra que gerou grande interesse. Por isso, sempre achei que valia a pena. Vale sempre a pena.
- Acha que quem ler o livro vai mudar a ideia que tem sobre Mao?
- Definitivamente. É um livro muito documentado, tem muitas notas e vai fazer sentido para muitas pessoas. Explica muitas coisas, como por exemplo: por que Mao iniciou a Revolução Cultural, por que destruiu o próprio partido, ou por que odiou o número 2 do Partido, Liu Shao-chi, e o levou a uma morte terrível? Encontrámos a explicação. Em 1949, quando tomou o poder, quis criar uma superpotência militar que dominasse o mundo. Importou tecnologia nuclear da Rússia e pagou-a com alimentos. Dezenas de milhar de chineses morreram, mas Mao não queria parar. Liu era um homem duro, mas mesmo ele estava aterrorizado com a fome. Em 1962, fez uma emboscada a Mao na Conferência dos Sete Mil, que reunia os principais membros do Partido. Mao foi obrigado a mudar a sua política, mas passou a odiar quem estava contra ele. A Revolução Cultural é o princípio da vingança, uma grande purga, que pretendia substituir os seus inimigos políticos por outros mais manipuláveis.
- O que fez com que Mao falhasse na sua intenção de tentar dominar o mundo?
- Mao teve muitas coisas contra a sua ambição. Não era um bom economista. Em 1958, precisava de aço e a China não o tinha. Ordenou à população para o fundir. Eu tinha seis anos e lembro-me de cozer aço na cozinha da escola. Isto afectou a qualidade da indústria chinesa. O pouco que se conseguia obter era de muito má qualidade. Mao sabotou-se a si mesmo. Queria a tecnologia russa, mas ao mesmo tempo também queria ser o maior líder comunista. Separou-se de Krushev quando pensava que já tinha o suficiente. Mas não tinha. Queria ainda a tecnologia ocidental, mas não a sua influência. Tudo isso minou o regime. Até na Agricultura se deu mal. Mandou que os chineses matassem pardais, porque comiam as colheitas. Chegávamos a bater em tudo o que tínhamos por perto para assustá-los. Mas o resultado é que sem pardais os insectos aumentaram. Transformaram-se em pestes.
- Mao podia ter sido um novo Hitler?
- Mao queria dominar o mundo, mas não tinha qualquer programa de genocídio. Mas sim, ia estabelecer a tirania...
- Mas mesmo assim podia não ter sido o que foi, uma vez que foi ajudado pelos próprios inimigos, como na Longa Marcha...
- É verdade. Podia nunca ter tido tanto poder. Mao não queria saber da família, o que era invulgar para um chinês e também para um governante, que quer sempre ter descendentes. Mas nessa altura o líder nacionalista, Chiang Kai-chek - que neste aspecto era bem diferente de Mao -, tinha o filho herdeiro preso na Rússia de Estaline e chegou a um acordo com Mao, deixando passar o seu Exército para o Norte. Foi um momento decisivo para ele.
- O seu pai foi um dos primeiros a criticar o regime de Mao, como descreve em «Cisnes Selvagens»...
- Sim, o meu pai protestou contra a Revolução Cultural e a violência desses dias. Foi preso, torturado, levado à loucura, exilado para um campo de prisioneiros. Teve uma morte muito dolorosa. Posso olhar para além do meu pai para o resto dos chineses. O meu pai foi, apesar de tudo um privilegiado. Eu fui uma privilegiada. Estudei em boas escolas, cheguei à universidade, fui a primeira a sair da região onde nasci, Sichuan, que tem 19 milhões de habitantes, para o Ocidente. Os camponeses sofreram muito, o meu coração foi invadido de indignação e sofrimento.
- Os seus pais foram membros do Partido, você esteve na Guarda Vermelha. Acreditaram no comunismo. Acha que é possível existir um verdadeiro regime comunista na China?
- A Guarda Vermelha não era como as outras instituições comunistas. Todos os jovens, como eu aos 14 anos, faziam parte dela. Era um grupo sem uma estrutura política rígida, de jovens. Não penso que o comunismo tenha sido uma coisa boa. Percebo por que o meu pai se juntou e ficou no Partido Comunista. Os jovens estavam dedicados à luta contra os japoneses. Mas quando chegaram a Yenan, onde Mao punha inicialmente em prática o comunismo, viram que era uma ilusão. Não havia igualdade. Mao dizia que era coisa de burgueses. Aterrorizou todas as pessoas. Yenan foi fechado ao mundo exterior. Acho que se fosse permitido sair do Partido, o meu pai teria saído. Nunca fui comunista. Não havia escolha a não ser ver Mao como Deus. O comunismo nunca deu certo em lado nenhum. Temos ainda de encontrar um verdadeiro regime comunista, porque ainda não existe. Todos os que tentaram sê-lo falharam. Acho que o comunista só consegue existir no papel.
- Sentiu alguma vez, nestes mais de 10 anos de investigação, que a sua vida estava em perigo?
- Quando fazia a pesquisa, não. Agora que escrevi o livro não sei. Nunca se sabe. O pensamento é dos últimos da minha cabeça. Tento viver a vida normalmente, mas nunca se sabe.
- A sua escrita sugere que é uma contadora de histórias, mas os dois livros são históricos e biográficos. Vai alguma vez escrever ficção?
- Não sei. Estou muito contente com este livro. Tem ainda essa parte de contadora de histórias de “Cisnes Selvagens”. É fácil porque Mao é uma figura com muitas histórias, mas ao mesmo tempo difícil porque há factos históricos e descobertas que têm de ser introduzidos no relato. Acho que passámos dois anos só a tentar que ficasse bem. Passei muito tempo para fazer este livro, talvez um dia escreva ficção. Agora, vou tirar umas longas férias. E prometo que não vou passar dez anos a escrever o próximo livro.
- O que acha que Mao sentiria se lesse este livro?
- Talvez sentisse admiração [risos]. Mao tinha a mente sempre a cem à hora, só conseguia dormir com um dose elevada de comprimidos, que mataria uma pessoa normal. Mao fez com que fosse muito difícil percebê-lo, criou mitos, decepções. Se tivesse lido este livro, talvez tivesse sentido que finalmente o tinham percebido [risos].