O Mundo a Tinta-da-China

Este blog é dedicado aos livros e à cultura. É feito de opiniões e não de sentenças, e deve ser lido sem preconceitos. A maior parte dos artigos foram ou serão publicados no jornal Metro. Todos os textos são da autoria de Luís Mateus, editor do jornal desportivo Maisfutebol. Esta abordagem aos livros é apenas mais uma leitura do que se lê em Portugal.

quinta-feira, fevereiro 2

Sugestões de leituras

“O Arconte”, de Catherine Fisher (Presença)
Já é Alexos, o verdeiro dono, quem se senta no trono do Arconte. Mas, apesar de terem respeitado o desejo do deus, a sacerdotisa Mirany e os seus amigos ainda não conseguiram derrubar o poder do corrupto e ambicioso General Armelin. A única esperança é devolverem a água à cidade. No entanto, há uma longa e perigosa viagem que tem de ser feita para que isso aconteça. “O Arconte” é o segundo volume da trilogia que nasceu com “O Oráculo”. Apesar de todos os julgamentos só poderem ser definitivos com o terceiro livro, Catherine Fisher já conseguiu escrever dois volumes de grande força e dimensão.

“As Quatro Vidas do Salgueiro”, de Shan Sa (Casa das Letras)
Quatro novelas. Os primeiros amores, as primeiras revoltas, as primeiras traições. Na China, o salgueiro-chorão simboliza a morte e o renascimento. Conhecida pelas folhas caídas, a árvore chora e a obra de Shan Sa, autora de “Imperatriz” e de “A Porta da Paz Celeste”, está impregnada de toda essa tristeza. Ao longo dos tempos, o salgueiro acompanha a história das personagens. Vive com elas os dramas e as desilusões. Reage aos destinos. Envelhece. “As Quatro Vidas do Salgueiro” é um livro doce e melancólico de uma das mais importantes escritoras chinesas da actualidade.


“A Tempestade”
, de Juan Manuel de Prada (Âmbar)
Um professor de arte chega a Veneza para estudar o quadro “A Tempestade”, de Giorgione. Nessa mesma noite, presencia um assassinato e vê um desconhecido morrer nos seus braços. Interrogado pela polícia, Alexandre vê-se, aos poucos e poucos, envolvido nas investigações para descobrir o assassino. Conhece o director do museu onde o quadro se encontra e apaixona-se pela filha. A sua visão da arte e da vida vai acabar por mudar fruto dessa relação. Prémio Planeta, Juan Manuel Prada traz-nos aqui um livro entretido e muito bem escrito.

“Beatles”, de Lars Saabye Christensen (Cavalo de Ferro)
Crescer ao som dos Beatles. Esta é a história de Kim Karlsen e de mais três amigos: Gunnar, Ola e Seb. Na Primavera de 1965, sente-se na Noruega a primeira onda da “Beatlemania”. E os quatro não fogem à regra. São grandes fãs e vêem-se às vezes na pele dos elementos da banda. Apesar da presença da música em toda a parte, incluindo o nome dos capítulos, o livro de Lars Saabye Christensen vai mais além. Há mais na vida do que uma sucessão de acordes. E a adolescência vem sempre acompanhada de um mar de problemas e dificuldades, sobretudo para um grupo de miúdos tão ingénuos que nunca traçaram objectivos a longo prazo. Uma boa leitura.

Viver quanto todos os outros dormem

Uma caixa de fósforos, uma lareira e um mundo para se viver às quatro da manhã. Um editor de livros de medicina está acordado quando todos os outros dormem para poder absorver a vida. “A Caixa de Fósforos” (Quetzal, 2005) é um livro sem trama, um conjunto de 33 cartas endereçadas a alguém não identificado, talvez a todos os leitores. É um livro filosófico que se lê como romance.

Emmett tem uma mulher, dois filhos, um gato e um pato. Levanta-se todas as noites antes do nascer do sol, faz café e senta-se a olhar para a lenha a queimar, porque quer descobrir o significa existir. O talento de Nicholson Baker, autor de “Mezzanine”, ao descrever e celebrar a vida conseguiria convencer até a sua personagem principal, um homem que atravessa a crise da meia-idade e tem tendências suicidas. Pena é que o pato seja mais influente na história que a próxima família. Mas, mesmo assim, o resultado é um excelente exercício.

Todos gostaríamos de ser como Emmett: ter tempo para nos perder nos nossos próprios pensamentos, analisar tudo o que nos acontece diariamente. E, à medida que se viram as páginas, vamos acenando com a cabeça a tudo o que ele nos quer transmitir. Passamos todo o livro assim. Entramos na sua pele porque não podemos acordar todos os dias de madrugada.

O resultado é um livro que nos fica na cabeça.

Não tem nada para fazer ao Sábado?

Ian McEwan trouxe-nos, em 2005, uma das melhores obras do ano. “Sábado” é um livro sobre a mente humana.

“O avião sobrevoa a copa das árvores. Por instantes, o fogo lampeja festivamente por entre os ramos. De repente, Perowne lembra-se de que talvez devesse fazer alguma coisa.” É de madrugada e o neurocirurgião veio à janela porque não conseguia dormir. Daí a poucas horas, haverá uma grande manifestação contra a guerra no Iraque. Vêm-lhe à memória os atentados de 11 de Setembro. A mulher dorme tranquilamente. Henry Perowne apercebe-se de que o avião se dirige para o aeroporto de Heathrow.

Um acontecimento chocante abre a obra mais recente de Ian McEwan. Aí “Sábado” (Gradiva, 2005) não é muito diferente de “A Criança no Tempo” - uma criança é agarrada e desaparece - ou de “O Fardo de Amor” - um balão de hélio cai. Mas, desta vez, a narrativa resume-se a 24 horas, o dia 15 de Fevereiro de 2003, um sábado. Tudo acontece entre a madrugada em que vê o avião a descer e a seguinte, em que recupera mentalmente tudo o que lhe aconteceu. Não se passam décadas como em «Expiação», o livro que é considerado a sua obra-prima. Porque, afinal, num dia também pode acontecer muita coisa. E, desta vez, a figura central não é uma criança com vocação de romancista, mas um médico que não gosta de ler livros de ficção. As personagens imaginadas por Ian McEwan nunca são iguais.

A acção roda toda à volta de Perowne. É verdade que não vive sozinho. É casado com a advogada de um jornal e tem dois filhos: o músico Theo e a poetisa Daisy. Mas são praticamente ornamentais. Apenas «existem» numa única cena, um jantar familiar que comemora a edição do primeiro livro de Daisy.

Henry é neurocirurgião e adora corrigir os cérebros das pessoas. Vê para lá do crânio autênticas obras de arte. É ao exercer a sua profissão que conhece um professor iraquiano torturado pelos homens de Saddam. O encontro torna-o quase favorável à guerra iminente e contra as explicações simplistas daqueles que a querem impedir. Um acidente de automóvel leva-o a usar a sua experiência para se livrar da fúria de Baxter, um marginal com uma doença incurável. Voltariam a encontrar-se da pior maneira. Depois de assistir à humilhação de toda a família, Perowne apercebe-se de que um simples poema conseguira alterar o equilíbrio de forças. Baxter fica entre a vida e a morte. E o médico tem mais uma missão.

A escrita de Ian McEwan é exacta e complexa, capaz de nos deixar em suspenso e de, ao mesmo tempo, reflectir com ela. “Sábado” é um livro sobre a mente humana. Um dos melhores de 2005.

quarta-feira, dezembro 28

Aviso

Este blog foi criado apenas hoje, mas já existia noutro endereço. Por isso, tudo o que foi publicado nessa altura foi publicado aqui com a data de hoje. Espero manter a partir de agora uma actualização mais frequente deste blog. Obrigado,

Luís Mateus

Entrevista a Jung Chang: «Mao ia sentir que o tinham finalmente percebido»

“Mao – A História Desconhecida” (Bertrand/Círculo de Leitores) é o regresso de Jung Chang aos livros, depois do estrondoso sucesso de “Cisnes Selvagens”. Uma investigação de mais de dez anos, que contou com a ajuda do historiador e marido Jon Halliday, sobre a vida de Mao Tse-Tung, o antigo líder comunista chinês. A chinesa está muito contente com o que traz de novo à história do seu país. Revelações surpreendentes trazidas ao mundo por uma verdadeira contadora de histórias.

- Qual é o principal objectivo deste livro?

- Sou escritora, quero escrever livros. Quando acabei “Cisnes Selvagens” quis escrever este livro. Mao parecia ser o tema provável. Parecia natural ser o próximo assunto. Dominou a minha vida e a da minha família. O meu coração estava orientado para aí. Depois, escrevi o livro e descobri tanta coisa... Espero que seja lido por muitas pessoas para que conheçam realmente quem ele foi. Na China, ainda se idolatra Mao. A China de hoje deve conhecer o que foi a China do passado.

- Sentiu que havia um capítulo ou volume por preencher na história chinesa?

- Definitivamente. A habitual descrição de Mao não explica muitas coisas. Porquê a fome? Por que morreram dezenas de milhar de pessoas entre 1958 e 1961? Por que existiu a Revolução Cultural? Por que Mao destruiu o seu próprio partido? Havia tantas coisas a responder e penso que o conseguimos.

- Da mesma forma que os músicos escrevem canções de protesto sente que este é um livro de protesto?

- É uma pergunta interessante [risos]. Este livro não é um panfleto, um catálogo dos crimes cometidos por Mao. Não pretende mostrar os números como simples números, a frio. Este livro tem paixão. Sinto paixão pela China. Sinto-me indignada com Mao pelo que fez à China...

- Então, é um livro de protesto…

- Não... [risos] Este livro decifrou muitos enigmas, muitos mistérios da história chinesa. Dá uma resposta satisfatória a muitos puzzles. É um trabalho de detective, não um trabalho de protesto.

- Trata-se de um segundo capítulo de “Cisnes Selvagens”?

- Acho que é uma continuação natural.

- Tem a consciência de que provavelmente serão poucos os chineses que vão ler este livro? E dez anos é muito tempo, sentiu alguma vez que todo o seu esforço não valia a pena?

- Estou agora a traduzir este livro para chinês para que seja publicado em Taiwan. A China não pode verificar todas as malas de viagem... Estou convencida de que muitos chineses vão ler este livro. “Cisnes Selvagens” também foi banido na China e muitas cópias chegaram aos chineses. Havia inclusive duas delas pirateadas. Toda a gente está interessada em saber mais sobre Mao, até mesmo longe do meu país. Nos outros onde já foi publicado foi best-seller. Isso mostra que gerou grande interesse. Por isso, sempre achei que valia a pena. Vale sempre a pena.

- Acha que quem ler o livro vai mudar a ideia que tem sobre Mao?

- Definitivamente. É um livro muito documentado, tem muitas notas e vai fazer sentido para muitas pessoas. Explica muitas coisas, como por exemplo: por que Mao iniciou a Revolução Cultural, por que destruiu o próprio partido, ou por que odiou o número 2 do Partido, Liu Shao-chi, e o levou a uma morte terrível? Encontrámos a explicação. Em 1949, quando tomou o poder, quis criar uma superpotência militar que dominasse o mundo. Importou tecnologia nuclear da Rússia e pagou-a com alimentos. Dezenas de milhar de chineses morreram, mas Mao não queria parar. Liu era um homem duro, mas mesmo ele estava aterrorizado com a fome. Em 1962, fez uma emboscada a Mao na Conferência dos Sete Mil, que reunia os principais membros do Partido. Mao foi obrigado a mudar a sua política, mas passou a odiar quem estava contra ele. A Revolução Cultural é o princípio da vingança, uma grande purga, que pretendia substituir os seus inimigos políticos por outros mais manipuláveis.

- O que fez com que Mao falhasse na sua intenção de tentar dominar o mundo?

- Mao teve muitas coisas contra a sua ambição. Não era um bom economista. Em 1958, precisava de aço e a China não o tinha. Ordenou à população para o fundir. Eu tinha seis anos e lembro-me de cozer aço na cozinha da escola. Isto afectou a qualidade da indústria chinesa. O pouco que se conseguia obter era de muito má qualidade. Mao sabotou-se a si mesmo. Queria a tecnologia russa, mas ao mesmo tempo também queria ser o maior líder comunista. Separou-se de Krushev quando pensava que já tinha o suficiente. Mas não tinha. Queria ainda a tecnologia ocidental, mas não a sua influência. Tudo isso minou o regime. Até na Agricultura se deu mal. Mandou que os chineses matassem pardais, porque comiam as colheitas. Chegávamos a bater em tudo o que tínhamos por perto para assustá-los. Mas o resultado é que sem pardais os insectos aumentaram. Transformaram-se em pestes.

- Mao podia ter sido um novo Hitler?

- Mao queria dominar o mundo, mas não tinha qualquer programa de genocídio. Mas sim, ia estabelecer a tirania...

- Mas mesmo assim podia não ter sido o que foi, uma vez que foi ajudado pelos próprios inimigos, como na Longa Marcha...

- É verdade. Podia nunca ter tido tanto poder. Mao não queria saber da família, o que era invulgar para um chinês e também para um governante, que quer sempre ter descendentes. Mas nessa altura o líder nacionalista, Chiang Kai-chek - que neste aspecto era bem diferente de Mao -, tinha o filho herdeiro preso na Rússia de Estaline e chegou a um acordo com Mao, deixando passar o seu Exército para o Norte. Foi um momento decisivo para ele.

- O seu pai foi um dos primeiros a criticar o regime de Mao, como descreve em «Cisnes Selvagens»...

- Sim, o meu pai protestou contra a Revolução Cultural e a violência desses dias. Foi preso, torturado, levado à loucura, exilado para um campo de prisioneiros. Teve uma morte muito dolorosa. Posso olhar para além do meu pai para o resto dos chineses. O meu pai foi, apesar de tudo um privilegiado. Eu fui uma privilegiada. Estudei em boas escolas, cheguei à universidade, fui a primeira a sair da região onde nasci, Sichuan, que tem 19 milhões de habitantes, para o Ocidente. Os camponeses sofreram muito, o meu coração foi invadido de indignação e sofrimento.

- Os seus pais foram membros do Partido, você esteve na Guarda Vermelha. Acreditaram no comunismo. Acha que é possível existir um verdadeiro regime comunista na China?

- A Guarda Vermelha não era como as outras instituições comunistas. Todos os jovens, como eu aos 14 anos, faziam parte dela. Era um grupo sem uma estrutura política rígida, de jovens. Não penso que o comunismo tenha sido uma coisa boa. Percebo por que o meu pai se juntou e ficou no Partido Comunista. Os jovens estavam dedicados à luta contra os japoneses. Mas quando chegaram a Yenan, onde Mao punha inicialmente em prática o comunismo, viram que era uma ilusão. Não havia igualdade. Mao dizia que era coisa de burgueses. Aterrorizou todas as pessoas. Yenan foi fechado ao mundo exterior. Acho que se fosse permitido sair do Partido, o meu pai teria saído. Nunca fui comunista. Não havia escolha a não ser ver Mao como Deus. O comunismo nunca deu certo em lado nenhum. Temos ainda de encontrar um verdadeiro regime comunista, porque ainda não existe. Todos os que tentaram sê-lo falharam. Acho que o comunista só consegue existir no papel.

- Sentiu alguma vez, nestes mais de 10 anos de investigação, que a sua vida estava em perigo?

- Quando fazia a pesquisa, não. Agora que escrevi o livro não sei. Nunca se sabe. O pensamento é dos últimos da minha cabeça. Tento viver a vida normalmente, mas nunca se sabe.

- A sua escrita sugere que é uma contadora de histórias, mas os dois livros são históricos e biográficos. Vai alguma vez escrever ficção?

- Não sei. Estou muito contente com este livro. Tem ainda essa parte de contadora de histórias de “Cisnes Selvagens”. É fácil porque Mao é uma figura com muitas histórias, mas ao mesmo tempo difícil porque há factos históricos e descobertas que têm de ser introduzidos no relato. Acho que passámos dois anos só a tentar que ficasse bem. Passei muito tempo para fazer este livro, talvez um dia escreva ficção. Agora, vou tirar umas longas férias. E prometo que não vou passar dez anos a escrever o próximo livro.

- O que acha que Mao sentiria se lesse este livro?

- Talvez sentisse admiração [risos]. Mao tinha a mente sempre a cem à hora, só conseguia dormir com um dose elevada de comprimidos, que mataria uma pessoa normal. Mao fez com que fosse muito difícil percebê-lo, criou mitos, decepções. Se tivesse lido este livro, talvez tivesse sentido que finalmente o tinham percebido [risos].

Sugestões de leituras (livros de 2005)

“A Misteriosa Chama da Rainha Loana”, de Umberto Eco (Difel)

Yambo é alfarrabista em Milão, Itália. Um AVC atira-o para o coma e depois para a perda parcial de memória: a relacionada com os sentimentos. Não reconhece os filhos e a mulher, e os antigos romances, mas lembra-se da história, do que aconteceu à sua volta desde criança. Na casa de campo onde passou a infância, embarca numa viagem pelo tempo esquecido, ajudado pelos livros, banda desenhada e música. Aos poucos, a figura de uma rapariga, que não reconhece ao início, vai surgindo do nevoeiro. Uma paixão, sublinhada por cartas da sua autoria, a primeira da sua vida. Que nunca soube dos seus sentimentos e partiu para a América do Sul antes que lho dissesse. Hipertenso, um novo AVC coloca-o às portas da morte. Para reencontrar a pessoa que amou e que, descobre depois, morreu pouco depois. Umberto Eco traz-nos um excelente romance, ilustrado com as imagens que ajudam Yambo a recuperar parte de si, que nos reintroduz na Itália dos tempos de Mussolini.

“Sábado”, de Ian McEwan (Gradiva)

Um dia na vida de um neurocirurgião habitado a operar no misterioso cérebro humano: 15 de Fevereiro de 2003. Dia em que o povo americano protestou em massa contra a guerra no Iraque. Quando se dirige para o habitual jogo de squash, Henry Perowned envolve-se num acidente de automóvel e repara que um dos jovens do outro veículo apresenta sérias perturbações psíquicas. Com a sua experiência, ganha de novo o controlo do carro e pode partir em paz. À hora de jantar, Baxter volta a contactá-lo. “Sábado” é o último romance de um dos nomes maiores da literatura contemporânea. Uma obra que não reuniu consenso entre os críticos, Mas que tem o melhor de McEwan: a exactidão e complexidade da linguagem, o mistério e a capacidade de reflexão. A ler, sem dúvida.

“Ladrão de Fogo”, de Pedro Paixão (PrimeBooks)

“Casei, tive um filho, divorciei-me várias vezes. A minha primeira mulher era perita em explosivos. Dava aulas mensais a um grupo de intervenção da Guarda Nacional Republicana. Nunca entrava num carro sem verificar se não estaria armadilhado. Adorava-a. Descascava pêssegos que lhe punha na boca aos pedaços. Fugiu passados quatro meses com o antigo namorado. Deixou-me destroçado, o coração enlouquecido”. O autor de “A Noiva Judia”, “Nos Teus Braços Morreríamos” e “Viver Todos os Dias Cansa” publica o 17º livro, desta vez com a chancela da PrimeBooks. Pedro Paixão, nome muito em voga durante a década de 90, nunca conseguiu o sucesso que outros grandes nomes da literatura portuguesa tiveram. Porque faz parte daquele grupo de escritores que se gosta ou detesta, se lê nas omissões ou não se percebe. E que escreve com a alma.

“Goa ou o Guardião da Aurora”, de Richard Zimler (Gótica)

Século XVI, Goa, Índia, ainda Portugal. Bruxos que não o eram, apenas nativos e judeus com os seus costumes, e a perseguição da Inquisição. Uma família luso-judaica – o escritor torna personagens centrais elementos de mais uma geração da família Zarco, também presente noutros livros - e a cozinheira hindu vivem felizes até ao dia em que são acusados pela Igreja. O norte-americano Richard Zimler, professor na Universidade do Porto, prossegue na sua saga de dar voz a quem não a tem ou, neste caso, a quem não a teve. E com um rigor histórico notável para quem há uns anos conhecia muito pouco da realidade judaica portuguesa. “Goa ou o Guardião da Aurora”, quase 350 páginas de puro talento para contar histórias.

“Stasiland”, de Anna Funder (Civilização)

“O Grande Irmão” de George Orwell, em “1984”, transportado para o microclima do lado de lá do muro de Berlim. Anna Funder torna imortais histórias fantásticas sobre o mais perfeito sistema de vigilância de sempre, protagonizado pela polícia secreta da Alemanha de Leste, a Stasi. “Stasiland” (“terra da Stasi”) é um documento que desafia a crença humana: um em cada seis habitantes era informador do Estado, o conhecimento da vida privada infindável. Um aviso sobre a manipulação da verdade, a queda dos direitos civis e as consequências da vigilância febril. A escritora australiana, que se estreia com este livro, venceu o prémio Samuel Johnson, dedicado à não-ficção, em 2004. Mas as histórias são contadas quase em jeito de romance. Imprescindível.

Sugestões de leituras (livros de 2005)

“Don Giovanni ou O Dissoluto Absolvido”, de José Saramago (Caminho)

É o regresso do Nobel ao teatro. A história de Don Giovanni, personagem principal da conhecida ópera de Mozart com o mesmo nome, é contada por José Saramago à sua maneira: o sedutor de 2065 mulheres passa a ser o eterno seduzido, segundo a pena do autor de “O Memorial do Convento” e “Evangelho Segundo Jesus Cristo”. Este livro é o resultado do apelo do compositor Azio Corghi para que, juntos, escrevessem um libreto para uma ópera a ser apresentada no Scala de Milão.

“Gulag – Uma História”, de Anne Applebaum (Civilização)

Prémio Pulitzer 2004 para a não-ficção. Só isso diz quase tudo. Gulag é um retrato do que foram os antigos campos de concentração soviéticos durante o tempo de Estaline. Os primeiros e últimos capítulos concentram-se na lição que ocidente e oriente devem retirar do que foi o sistema prisional na URSS. No miolo, surge uma série de relatos de heróicos sobreviventes. Os gulag eram um mundo em si mesmo: havia amor, traição, nascimentos, crime e amizade. Uns eram culpados, outros não.

“De Amor”, de Danièle Sallenave (Gradiva)

“Contar isto absorve todo o meu tempo, todas as minhas forças, transborda dos meus sonhos. Carrego comigo um estimável património de mortos, é preciso dizê-lo. E quem se lembra deles? Eu.” Duas pessoas amadas pela mesma mulher suicidam-se. A tia debaixo de um comboio, o antigo amante, que nunca gostou do que via ao espelho, à fome. Um livro autobiográfico sobre os traumas da guerra e da separação amorosa.

“O Atlas Furtivo”, de Alfred Bosch (Livros do Brasil)

Um thriller histórico. O pai de Jafudá, personagem principal, é encarregado pelo rei de Aragão de elaborar um mapa-mundo, o mais preciso e belo até então (século XIV). Ao mesmo tempo, o velho Cresques de Abraão decide elaborar outro. É nesse momento que Jafudá é envolvido num onda de acontecimentos imprevisíveis. Prémio Santi Jordi em 1997, “O Atlas Furtivo” é um livro de leitura fácil e entusiasmante.

“A Paixão de Maria Madalena (segundo volume)”, de Margaret George (Saída de Emergência)

A segunda parte da história d’ “A mulher que amou Jesus”, que relata a história de Maria Madalena como discípula de Cristo. George evoca com grande autenticidade as cores, os sons e as multidões da antiga Judeia. A autora aceitou o desafio enorme de escrever uma biografia ficcional sobre alguém de quem se sabe pouco. O resultado é um bom livro (no original, os dois volumes estão reunidos num único), apesar de esta segunda parte parecer um pouco menos atraente que a primeira.

“As Paisagens Propícias”, de Ruy Duarte de Carvalho

O antropólogo angolano conta neste livro a história de um homem, Paulino, a quem foi pedido que encontrasse outro no meio do deserto. O motivo: uns papéis preciosos concentrados no interior de uma mala. Uma vez cumprida a missão, a Paulino é reenviado pelo mesmo homem de encontro ao mandatário da expedição com o objectivo de o trazer perante ele. É a terceira obra de ficção de Ruy Duarte de Carvalho, depois de “Como se o Mundo não Tivesse Leste” e os “Papéis do Inglês”.

Sugestões de leituras (livros de 2005)

“O Pássaro Espectador”, de Wallace Stegner (Teorema)

Ganhou o prémio norte-americano de ficção em 1997. Um agente literário já reformado sente-se um jovem aprisionado em corpo de velho. A maior parte da sua vida, enquanto ajudava outros a alcançar o reconhecimento público e fama, foi passada como espectador. Só a serenidade de Ruth, a mulher, e a intimidade da relação conseguem diluir a mágoa que sente. Por ter passado pela vida como uma sombra. É então que reencontra o diário de uma viagem à Dinamarca, pouco depois da morte do filho. Uma demanda para apagar a dor. Joe Allston embarca no “Estocolmo” e, à medida que revê os bizarros acontecimentos, percebe que a sua participação no mundo foi bem mais directa do que julgava. Stegner consegue encontrar o equilíbrio perfeito entre uma linguagem que nos provoca e, ao mesmo tempo, nos acalma. Entre a nostalgia e a realidade. Um excelente livro.

“O Espião do Vaticano – Livro I”, de Luther Blisset (Saída de Emergência)

O primeiro volume já aí está. Trezentas e oitenta páginas antes de mais outras tantas sobre o século XVI, tempo da reforma luterana e das guerras religiosas. Um jovem protestante que permanece anónimo ao longo da história e o seu inimigo mortal “Q”, um espião do Papa, que tem como missão descobrir hereges, participam num mortal encontro de xadrez por toda a Europa. Ao mesmo tempo, é revelada uma conspiração bem maior, na qual os hereges são peões num jogo de poder entre o Vaticano, os príncipes alemães e o Império Romano. Os reformistas foram considerados os primeiros homens de esquerda da Europa, que surgiram para contrariar o capitalismo burguês, em que Estado e Igreja andavam de mão dada com o comércio e a banca. Luther Blisset é o pseudónimo não de um mas de quatro escritores, auto-intitulados de esquerda, de Bolonha. O que valoriza o resultado final: é muito difícil aliar estilo de linguagem entre duas pessoas e quase impossível com quatro; e neste livro as diferenças estão bem disfarçadas.

“Cartas do Inferno”, de Ramón Sampedro (D. Quixote)

O livro que deu origem a “Mar Adentro”, o filme de Alejandro Amenábar. O realizador escreve o prólogo desta edição, que tem ainda uma carta inédita do autor. “Cartas do Inferno” relata a vida de Sampedro desde que se tornou tetraplégico, após um acidente, e o seu desejo, durante 30 anos, de querer morrer. Foi editado pela primeira vez em Espanha em 1996 e reeditado em formato de bolso, após o suicídio do autor, dois anos depois. Sampedro encara a eutanásia como um fim lógico de quem não quer continuar a sofrer: rejeita teorias religiosas, legais ou mesmo intelectuais. Mas ninguém estava disposto a ouvi-lo. Ramón insistia. Escreveu cartas a juízes, ao Rei, ao Papa. Ninguém queria discutir com ele, um homem amargurado que nunca perdeu o sentido de humor. Um homem que sempre se mostrou sábio acerca do mundo e da própria vida.

“O Iluminador”, de Brenda Rickman Vantrease (Bertrand)

Um romance de textura fina e rica: vêem-se nítidas imagens coloridas, ouvem-se todos os sons, cheiram-se os cheiros, participa-se nos encontros, nos acontecimentos, nas histórias das personagens. Um retrato fiel do que era viver em Inglaterra durante a era de crueldade da Idade Média. Vantrease explora a relação de poder entre Nobreza, Clero e os monarcas, e mostra-nos o sofrimento do povo. A autora junta ainda à trama um extenso lote de personagens, que interagem com a família, amantes, servos e inimigos. Assim, chega até nós uma Inglaterra dos finais do século XIV, assolada por pragas, guerras, sublevações e tensão política e religiosa. O rei tem 10 anos e o poder é dividido pelos influentes tios. Ao mesmo tempo, o mestre iluminador Finn tem como missão ilustrar a Bíblia, que está a ser traduzida por um teólogo reformista para inglês. Brenda Vantrease relata de forma fantástica esta arte ancestral. E este é apenas um dos elogios possíveis ao seu livro.

“O Mistério da Cripta Assombrada”, de Eduardo Mendoza (Casa das Letras)

Um policial, escrito pelo catalão Eduardo Mendoza, que ganhou os prémios “Lire” e “Cidade de Barcelona”. O misterioso desaparecimento de crianças do colégio de freiras lazaristas de San Gervásio é o ponto de partida do livro. O protagonista é um doente de um manicómio, um psicopata, que é obrigado a tornar-se investigador e se vê envolvido numa farsa de contornos bastante confusos. “O Mistério da Cripta Assombrada” é uma mistura de novela negra e de relato gótico, que gira em redor do surreal e do bizarro: um doente mental a quem é atribuída uma missão lógica e importante. O humor é frio e, por vezes, brilhante. Negro. A linguagem de Eduardo Mendoza torna a obra leve e entusiasmante. Uma sátira, uma obra escrita como divertimento, que deve ser lida também dessa forma.

Sugestões de leituras (livros de 2005)

“Eleanor Rigby”, de Douglas Coupland (Teorema)

Liz Dunn é a solitária protagonista de “Eleanor Rigby”. Descreve-se a si mesma como “gorda, suja e mal-humorada”. O emprego é maçador e impessoal, e a sua vida social inexistente. E tenta arranjar truques no dia-a-dia para que os minutos passem mais depressa. Um jovem entra nas emergências de um hospital com o nome e o número de Liz na pulseira de assistência médica. Ele reclama ser o filho que ela terá dado em adopção há muitos anos, depois de uma gravidez na adolescência. Jeremy é tudo o que a mãe não é: cativante, extrovertido e irrequieto. E tem uma doença terminal. Douglas Coupland faz no título do livro uma alusão a uma canção dos Beatles com o mesmo nome para simbolizar a impessoalidade do mundo moderno. Diz o refrão do tema da banda de Liverpool: “All the lonely people/Where do they all come from?/All the lonely people/Where do they all belong?” (Todas as pessoas solitárias/surgem de onde?/Todas as pessoas solitárias/pertencem a quê?). A questão que se coloca a Liz e Jeremy é se juntos serão capazes de ultrapassar essa indiferença entre o mundo e quem nele vive.

“Lucrécia e o papa Alexandre VI”, de John Faunce (Presença)

Uma das “femmes fatales” mais carismáticas da história, Lucrécia Bórgia, e o pai Roderigo, que é eleito Papa Alexandre VI, em 1492. Uma das eras mais obscuras da Igreja Católica, com banquetes dionísios, repletos de sexo e crime, nos quais Lucrécia era orgulhosa participante. Um tempo em que o chefe religioso tinha mais poder financeiro e militar do que a maior parte dos reis. Lucrécia vê o seu primeiro casamento anulado três anos depois sem ser feliz e sem engravidar. É declarada “virga intacta” e casa-se por mais duas vezes. Faunce, em vez de enveredar pela pesquisa, deixa-se cair na tentação de explorar o ambiente erótico à volta de Lucrécia. Produtor cinematográfico e argumentista, e não historiador, o autor cria uma nova personagem, que tem tanto de histórico como o cidadão comum. A linguagem que utiliza é barroca e procura entreter e não ensinar, apesar de alguns exageros em certos momentos. Se for lido de acordo com esta linha de pensamento, então é uma boa sugestão de leitura. Se olharem para a obra como biografia, mais vale deixá-la na prateleira…

“A Vida Secreta das Abelhas”, de Sue Monk Kidd (Asa)

Um livro muito bem escrito, com uma linguagem poética, recheada de metáforas: as abelhas precisam de uma rainha para sobreviver como Lilly, aos 14 anos, necessita de uma mãe; Lilly quer fazer-se ouvir tal como a comunidade africana nos Estados Unidos, que só há pouco tinha ganho usufruto dos seus direitos. A jovem vive com um pai que a castiga e trata com escrava, excepto no Natal, quando chega a casa carregado de presentes, e pensa que matou acidentalmente a mãe há 10 anos. Decide acompanhar Rosaleen, a mulher que tem tomado conta dela, à sua cidade natal onde se recenseará para poder votar. Uns dias depois, ambas descobrem que viajam para Tiburon S.C., o nome da cidade escrita na parte de trás de uma imagem, uma madona negra, um dos poucos objectos que a rapariga herdou da mãe, Deborah. Doce como o mel, mas não forçadamente doce, inocente por vezes, mas não ingénuo – propenso a segundas leituras -, uma excelente livro.

“A História Fabulosa de Peter Schlemihl”, de Adelbert von Chamisso (Assírio e Alvim)

Obra maior de um escritor alemão de origem francesa do século XVIII. Uma novela que convida ao fantástico. A Peter Schlemihl é oferecida uma bolsa de dinheiro que permanecerá sempre cheia em troca da sua sombra. É agora um homem rico, mas algo de mau vai abater-se sobre ele. Afinal, poderá ser feliz um homem sem sombra? Ao jeito dos irmãos Grimm e de Andersen, um conto moral e filosófico.

“A Filha do Contador de Histórias”, de Saira Shah (Asa)

A jornalista inglesa Saira Shah, que cresceu no seio de uma família afegã, traz-nos este íntimo relato do caótico e ferido passado recente do Afeganistão. E das suas frágeis perspectivas de futuro. Será que o país dos seus antepassados, quando procura ainda ambientar-se a uma nova realidade, está preparado para garantir os direitos das mulheres?

“O Tesouro do Templo”, de Eliette Abecassis (Livros do Brasil)

Deserto da Judeia. Os serviços secretos de Israel são colocados em alerta. Um arqueólogo é brutalmente assassinado, com o corpo a ser encontrado num altar, em jeito de sacrifício. Peter Ericson procurava um tesouro fabuloso do templo de Jerusalém, seguindo as pistas dadas por um manuscrito. Que mistério está por detrás desta morte? Um livro escrito de forma apaixonada e conhecedora.

“As Minhas Noites com Descartes”, de Huguette Bouchardeau (Temas e Debates)

Huguette Bouchardeau revela-nos um Descartes humano, sensível, mais próximo do nosso mundo. Biografia, ficção e ensaio juntos no mesmo livro. A francesa escreveu este livro porque os seus alunos nunca entenderam bem o que dizia o filósofo. Descartes, o homem que existia porque pensava. E que Descartes não duvide que ela fez um bom trabalho.

“Dante e os Crimes do Mosaico”, de Giulio Leoni (Presença)

O poeta italiano Dante Alighieri é transformado em detective. “A Divina Comédia” já está a ser escrita e não tem experiência em resolver mistérios, por isso a tarefa pode não ser fácil. Em Florença, Dante tem de perceber quais as pistas que valem a pena seguir. Especialista em filosofia do Renascimento, Giulio Leoni traz-nos um policial capaz de nos prender até à última página.

Sugestões de leituras (livros de 2005)

“Auto dos Danados”, de António Lobo Antunes (D. Quixote)

“Ouve, merda, gosto de ti. Gosto da tonalidade dos teus olhos e das tuas mãos nos meus ombros quando fazemos amor, das pernas que se enrolam com força nas minhas e me atam, me prendem, me imobilizam, me impedem de sacudir as ancas, em avanços e recuos, à medida que me beliscas, e me mordes, e me insultas, e acabas por morrer como um bicho pequeno, de súbito inocente, indefeso, sem rugas, numa cascatazinha de gemidos magoados, de cara transtornada como se fosses chorar”. Um dos livros-ícone do eterno quase-Nobel António Lobo Antunes, reeditado agora pela D. Quixote em versão ne varietur, totalmente fiel à vontade do autor. Grande prémio de Romance e Novela da Associação Portuguesa de Escritores (1985). Lobo Antunes não se comenta. Lê-se. Respira-se. Sente-se em arrepios da pele.

“O Deserto dos Tártaros”, de Dino Buzzati (Cavalo de Ferro)

Terceiro romance do escritor e jornalista italiano, um dos bons livros publicados em Portugal em 2005. Escrito em 1938, “O Deserto dos Tártaros” é um dos clássicos da literatura mundial. Um jovem oficial é enviado em serviço para um destacamento entre a montanha e um vasto deserto. Desesperado inicialmente para que o tempo passe depressa e possa voltar aos prazeres da vida normal, depressa é seduzido pelo local, onde passa os 30 anos seguintes da sua vida. Na esperança de que um dia o inimigo tente conquistar o forte e lhe permita um momento de glória e satisfação pessoal. A linguagem clara e a estrutura elegante do discurso de Buzzati faz com que acreditemos até ao fim que há uma razão escondida para que o personagem principal dedique parte da sua vida em busca de uma quimera. Mas a dúvida persistirá para sempre.

“Ainda da Felicidade”, de Hermann Hesse (Difel)

O sentido da felicidade segundo o Nobel suíço (natural de Calw, na Alemanha), num segundo volume da antologia “Da Felicidade”. “O poder do saborear e o do recordar dependem um do outro. Saborear quer dizer espremer de um fruto toda a sua doçura, até nada restar. Recordar, por seu turno, é a arte de não apenas reter aquilo que já antes se saboreou, mas também de o conseguir de modo cada vez mais nítido”. Prosa, poesia, correspondência e excertos, sempre sobre um tema que diz respeito a todas as pessoas do planeta: a realização pessoal. Vale a pena descobrir o autor de “Siddhartha”, um dos grandes nomes da literatura contemporânea, em todos os seus livros. Como este. O seu estilo simples e honesto granjearam-lhe inúmeros fãs por todo o mundo. Com justiça.

“No Antigamente, na Vida”, de José Luandino Vieira (Caminho)

Três estórias (com “e” e não com “hi”, mesmo) que não acabam, entrelaçam-se, continuam: “Lá, em Tetembuatubia”, “Estória d’Água Gorda” e “Memória Narrativa ao Sol de Kinaxixi”. “Noite nasce no antigamente, noite nova, pouco tempo só que falta e sua luz vem limpar nos nossos corpos boiando na memória das gordas águas de Kinaxixi: Uma lua honesta, minha testemunha única:/sábado na vida nunca mais na vida vai ter nunca mais Xaninha mas tu e eu é que somos de verdade mesmo/nunca nos deixaremos domesticar, juro!” Um livro que ficou pronto na tipografia no dia 24 de Abril de 1974, com o autor a distribuir os primeiros exemplares quando Salgueiro Maia encurralava a resistência do regime no quartel da GNR no Carmo. Luandino já só pensava em regressar a Angola, de onde saiu, anos antes, para o Tarrafal. “No Antigamente, na Vida”, foi recentemente incluído em francês na colecção “Du Monde Entier”, da Gallimard, com o título “Autrefois, dans la Vie”.

Sugestões de leituras (livros de 2005)

“Num País Livre”, de V.S. Naipaul (D. Quixote)

Cinco trabalhos, juntando-se o prólogo e o epílogo, com o mesmo ângulo, estrangeiros perdidos num país desconhecido e com uma cultura estranha: um operário indiano é transportado quase por acidente para Washington, onde encontra um nicho para se encaixar, mas continua alienado do que o rodeia; um índio passa a viver numa Londres bizarra; e trabalhadores americanos são expatriados para um recente estado africano dividido pela guerra civil. Várias visões de um mesmo mundo, de um idêntico ponto de vista. Para o Nobel de 2001, todos os homens fazem parte de colónias, mesmo em países livres. Com “Num País Livre”, originalmente publicado em 1971, o britânico natural de Trinidad venceu o Booker Prize. Uma obra de referência, editada agora pela D. Quixote.

“Se Ninguém Falar das Coisas Maravilhosas”, de Jon McGregor (Temas e Debates)

Um dia na vida... de vizinhos. Um bairro de Londres. Vidas fotografadas a polaroid, no momento, gravadas pela escrita inconfundível de Jon McGregor. Poética e muito colorida. De belas descrições, trabalhadas ao pormenor. Um cruzar de palavras que requer paciência, pelo sentimento de repetição que nos cria, mas que vale a pena. Muito. A história? Algo de mau vai acontecer, há essa denúncia nas entrelinhas, na conjunção e alinhamento dos factos. Um casal discute em todos os segundos, mas é apaixonado e voraz na cama; um homem tem as mãos cheias de cicatrizes depois de não ter sido bem sucedido a salvar a mulher de um incêndio; uma rapariga, a narradora, engravida depois de um relacionamento de uma noite e é o irmão gémeo do namorado que a acompanha até a casa dos pais. Para trazer a má nova.

“O Egiptólogo”, de Arthur Phillips (Gótica)

Ralph Trilipush procura o túmulo de Atum-Hadu, o último faraó da XIII dinastia egípcia. Mas poucos são aqueles que acreditam na existência de tal monarca. Ao mesmo tempo, Harold Ferrell, um detective privado australiano, está a investigar o desaparecimento de um homem no Egipto, no final da I Guerra Mundial. Os dois caminhos cruzam-se no deserto. Phillips traz-nos um mundo em que são poucas as certezas de que tudo ou todos são aquilo que parecem. Personagens de dupla ou mesmo tripla personalidade são explorados de forma brilhante pelo autor, que junta a isto um final entusiasmante e uma linguagem clara e eficiente.

“Pensatempos”, de Mia Couto (Caminho)

O primeiro livro de não-ficção do moçambicano publicado em Portugal. Trata-se de uma colecção de textos de opinião dispersos, publicados ao longo dos últimos anos em alguns jornais e revistas. Como esta carta ao presidente Bush, do qual se transcreve o primeiro parágrafo: “Senhor Presidente:/Sou um escritor de uma nação pobre, um país que já esteve na vossa lista negra. Milhões de moçambicanos desconheciam que mal vos tínhamos feito. Éramos pequenos e pobres: que ameaça poderíamos constituir? Uma arma de destruição massiva estava, afinal, virada contra nós: era a fome e a miséria.”

“Rosa Brava”, de José Manuel Saraiva (Oficina do Livro)

D. Leonor Teles e o seu tempo: o conturbado século XIV. Intriga palaciana, traição, assassínios e as guerras com Castela. Investigação pura trazida à luz do nosso tempo em forma de romance. Com uma linguagem fácil, atractiva e bastante feliz, o jornalista traz-nos um excelente exemplo de como pode ser ensinada a história. Apesar de ser uma obra de ficção, é baseada em factos históricos. A bela Leonor casa com o D. João Lourenço da Cunha por imposição do tio, o conde de Barcelos. Contrariada, parte para Lisboa, para a corte, onde seduz o jovem D. Fernando. Ambiciosa, conquista o poder que sempre desejou. Mas o povo, a nobreza e o clero não vêem com bons olhos a relação adúltera.

“Maré de Azar”, de Mark Mills (Civilização)

1947. O pescador Conrad Labarde e o sócio Rollo Kemp descobrem nas redes o corpo sem vida de uma jovem celebridade de Nova Iorque. A calma cidade de Amagansett, Long Island, nunca mais será a mesma. Tudo indica que se tratou de um acidente. Mas, o inspector Tom Hollis não se deixa enganar com as primeiras impressões. Pelo contrário. Acredita cada vez com mais veemência que a população anda a esconder-lhe algumas coisas. O próprio Labarde também se mostra bastante interessado no que poderá ter acontecido à jovem. “Maré de Azar” é um livro sobre a mudança, nas cidades e nas pessoas, escrito com uma atmosfera cinematográfica.

“Os Factos da Vida”, de Graham Joyce (Bizâncio)

Os factos de uma vida diferente daquela que vivemos. De um mundo onde o bater a uma porta pode significar a morte, ou uma noite de bombardeamento pode anunciar uma criança. Um mundo para o qual é irresistível manter o olhar. O nosso. De leitor. No romance não há lugar para sentimentalismos. Frank é neto de Martha e filho de Cassie, numa Coventry bombardeada durante a guerra. Frank é o nosso narrador num mundo impregnado pela força absurda das mulheres, sobretudo de Martha. O realismo mágico pela mão de Graham Joyce.

Sugestões de leituras (livros de 2005)

“Memórias de um Craque”, de Fernando Assis Pacheco (Assírio e Alvim)

“A maltózia votou contra: ‘Assis para a baliza.’ Lá fui./O que é não se aproximavam muito. Mal eu via um avançado de outra cor patinando na minha direcção, saía a ele, fazia ‘uh!’ e varapauzava-o como quem anda na azeitona. O avançado punha-se a guinchar e desaparecia até nova ocasião.” Um pequeno grande livro se lhe for aplicado o cliché da gíria do pontapé na bola. Uma obra sobre o futebol e sobre o seu papel na vida, logo na infância. Que se recita, que se lê aos amigos, que se devora para dentro. Divertido, irónico e autobiográfico. Hat trick de Assis.

“Um Monstro Também Precisa de Amigos”, de Jeff Lindsay (Quetzal)

Dexter ouviu do pai o melhor conselho que lhe podiam dar: “Mata só quem merece morrer e não deixes pistas que te liguem ao crime.” Quando está lua cheia, chega a fome de matar. É um desejo irresistível, que lhe está no sangue, que lhe chega através de uma força imaginária que chama de “passageiro negro”. Trabalho feito, guarda uma gota do sangue das vítimas. Para voltar a viver a emoção. Ao mesmo tempo, outro assassino em série começa a copiar o modus operandi de Dexter. Mas não esconde os cadáveres, mostra-se orgulhoso em deixá-los para apreciação geral. Dexter torna-se suspeito e decidir desmascarar o autor do plágio. Atenção: os conceitos deste livro podem ferir susceptibilidades, como, por exemplo, o de fazer de um assassino um herói de um romance. Vale como obra, deve ser lido como obra.

“Status Ansiedade”, de Alain de Botton (D. Quixote)

O polémico e por vezes incompreendido Alain de Botton – “O Consolo da Filosofia” e “A Arte de Viajar” – traz-nos agora “Status Ansiedade”, um daqueles livros que nos faz analisar os pensamentos a partir do lado de fora do nosso corpo. O principal fundamento da sua obra é o relacionamento entre tudo o que fazemos e a nossa constante procura de estatuto social/status. “Após o colapso do Império Romano no Ocidente, os indivíduos mais venerados passaram a ser, em muitas zonas da Europa, aqueles que se conformavam aos ensinamentos de Jesus Cristo”, diz-nos De Botton a certa altura. Um livro que nos obriga a pensar, enquanto lemos e depois de o fecharmos.

“O Círculo da Cruz”, de Ian Pears (Livros do Brasil)

Rico em detalhes históricos, zelo religioso, maravilhas científicas e intrigas políticas. Nem um pouco de bruxaria lhe falta. A novela começa no início do século XVII e relata o assassinato de um professor de Oxford, Robert Grove, de quatro pontos de vista diferentes. Pears é bem sucedido na mistura de personagens reais com ficcionais e na forma como vai alimentando o virar de páginas sucessivo por parte dos seus leitores. Os pormenores que o autor vai acrescentando à trama criam, a partir de certa altura, algumas dificuldades na leitura. Mas quem aguentar até final não vai arrepender-se.

Sugestões de leituras (livros de 2005)

“A Mulata Solidão”, de André Schwarz-Bart (Cavalo de Ferro)

Um belo romance de Schwarz-Bart sobre a escravatura. A história começa em África em 1750, com o nascimento da negra Bayangumay. No fim da adolescência, conforma-se com os costumes do seu povo e aceita, sem drama, tornar-se mulher de Dyadyu, um amigo do pai. A chegada dos brancos obriga, no entanto, a uma partida forçada para as Antilhas, via ilha Gorée, ao redor do Senegal, um dos principais pontos de tráfico de escravos. No navio negreiro, é violada. Dá à luz, à chegada a Guadalupe, uma menina mulata e rebelde que nunca chegará a amar, Rosalie: “Com a sua permissão, meu senhor, o meu nome é solidão.” Fiel ao seu sangue, Rosalie revolta-se contra os esclavagistas e torna-se heroína da ilha, onde ainda hoje, em Pointe-à-Pidre, está a sua estátua imponente.

“Kane & Abel”, de Jeffrey Archer (Europa-América)

Mais um livro que deu em filme, realizado em 1985 por Buzz Kulik. Dois homens nascidos no mesmo dia tornam-se inimigos durante 60 anos. William Lowell Kane pertence a uma família de banqueiros, vive luxuosamente e estudou nas melhores escolhas americanas. Abel Rosnovski é um pobre imigrante polaco que simboliza tudo o que Kane detesta. Só pode haver um vencedor no combate por um sonho, um império e uma fortuna. O mais teimoso derrotará o adversário.

“O Regresso”, de Jane Rogers (Livros do Brasil)

A sobrevivência é apenas o princípio. Nikki Black foi abandonada pela mãe pouco tempo depois de nascer e não sabe quem é o pai. Aos 28 anos, decide matar a progenitora. Tentou ser a melhor das pessoas, foi boa aluna e encontrou em emprego estável. Mas, depois de ter investigado um pouco, descobre que a mãe tinha 20 anos e não 15 quando a deixou numa caixa junto à entrada de um dos postos de correios de Londres. O que torna a atitude menos compreensível. Nikki decide-se pelo assassínio. Aluga um quarto à mãe, que não a reconhece, e descobre que tem um irmão. O plano vai aos poucos ganhando forma.

“Uma Casa no Fim do Mundo”, de Michael Cunningham (Gradiva)

Depois de “As Horas”, “Uma Casa no Fim do Mundo” também chegou, em 2004, ao cinema. O filme foi realizado por Michael Mayer e foi o próprio Cunningham que adaptou o livro a argumento. O autor traz-nos um novo conceito de família: Bobby muda-se para a casa de Jonathan, um amigo de infância, e de Clare. Bobby e Clare apaixonam-se, alimentando os planos de Jonathan, que é homossexual, em ser o pai de um futuro filho de Clare. Quando o casal tem um filho, os quatro mudam-se para uma casa mais pequena para criarem juntos a criança. E têm a ajuda da mais estranha das amigas: Alice.

“Pó Branco, Luz Verde”, de James Hawes (Temas e Debates)

A quarta novela de Hawes leva a sua heroína Jane Feverfew numa viagem cómica pelas excentricidades de Gales e pelo mundo dos filmes, em SoHo, Londres. O mundo que rodeia a personagem principal é bastante simples, superficial, quase etéreo. Só Jane, que é tudo menos inocente, é trabalhada pelo autor de forma a revelar tudo o que é realmente. Isto torna “Pó Branco, Luz Verde” um livro bastante leve, que se lê rapidamente. Isto apesar do tema central ser a droga, que destrói tudo e todos os que se chegam perto.

“Quimera”, de Valério Massimo Manfredi (Presença)

Manfredi é arqueólogo e escritor. O livro é um thriller arqueológico e, por isso, o autor sabe do que escreve. Um jovem estudante universitário chega a Volterra, Itália, para examinar uma misteriosa estátua etrusca que representa uma criança. O jovem persegue a descoberta que o pode lançar de vez na carreira. Mas, subitamente, várias mortes começam a aterrorizar a cidade. A explicação é o aparecimento de uma estranha criatura: uma quimera, um monstro fabuloso com cabeça de leão, corpo de cabra e cauda de dragão. Uma obra para devorar em poucos dias sem encontrar defeitos.

Sugestões de leituras (livros de 2005)

“Agradece o Beijo”, de Ana Zanati (D. Quixote)

O segundo romance da consagrada actriz portuguesa, depois de “Sinais do Medo”. Trata-se do relato da vida de uma mulher desde o nascimento até perto da morte, que ao mesmo tempo critica a sociedade e os seus preconceitos. “Desesperava-me quando se aproximava para me tocar dizendo que me amava. Ao sentir-me esquiva mudava o registo e tornava-se violento, batia-me. Tentei várias vezes explicar-lhe que o nosso casamento não podia seguir daquela forma. ‘Ninguém poderá separar o que Deus uniu!!’, berrava ele”.

“O Império dos Lobos”, de Jean-Christophe Grangé (Asa)

Anna é uma jovem casada que sofre de alucinações e de um problema de memória: reconhece o mundo inteiro menos o marido. Lembra-se de que foi alvo de operações plásticas, feitas por um louco que se encontrava ao serviço do exército. Três jovens de origem turca são encontradas mortas na “pequena Turquia”, um dos bairros de Paris. Um polícia, impotente para resolver o enigma, apela a um velho inspector. Violência, imaginação e erudição juntam-se neste excelente “thriller”, já adaptado ao cinema por Chris Nahon e coordenado pelo escritor francês.

“Largo da Memória”, de Homero Serpa (Caminho)

O antigo jornalista desportivo edita agora um livro de contos. Uma escrita com sabor a antigo, recheada de orações em cada frase, de buscas de novos sentidos e de muitas cores. As vidas de personagens do início deste tempo ganham novo fôlego, tornam-se reais em cada página. “A mulher da fava-rica despejou a concha cheiíssima da reconfortante sopa no prato côncavo que a freguesa, ainda embrulhada na bata de flanela cor-de-rosa, lhe estendia por uma nesga da janela, e só depois reparou no Messias, especado no passeio”.

“Alexandre – a Corte da Morte”, de Paul Doherty (Saída de Emergência)

O imperador prepara-se para invadir a Pérsia e conquistar o mundo. No entanto, na fronteira entre a Europa e a Ásia pára, subitamente indeciso e amedrontado. Os espiões e assassinos, e os sinais de maus augúrios preocupam o exército e Alexandre. Vários batedores são mortos. O monarca envia um amigo de infância no encalço do assassino e este depara-se com um estranho mundo de intriga e mistério. Doherty avança uma explicação credível para a indecisão do homem mais poderoso do planeta.

“Um amante na Palestina”, de Sélim Nassib (Teorema)

Golda Meir, que seria mais tarde primeira-ministra e pioneira do futuro Estado de Israel, dormiu com o inimigo. O seu mundo era sionista, ela era sionista, mas, nos anos 20, manteve uma relação com o banqueiro libanês Albert Pharaon. Uma israelita com um palestiniano, um árabe com uma judia. Selim Nassib conta agora esta história, verdadeira, mas impensável. Um romance em jeito de biografia. Um amor impossível.

“Rainha da América”, de Nuria Amat (Casa das Letras)

Prémio Ciutat de Barcelona 2002. A catalã traz aos seus leitores o eterno conflito colombiano entre o exército, os paramilitares e a guerrilha: uma jovem espanhola acompanha um jornalista, que também é escritor, à selva, ao coração da violência. A guerra é contada por uma terceira voz, não a do estratega nem a do soldado. Sem explicações, lamentos ou acusações, apenas com a força enorme das palavras, da linguagem, da emoção. “Rainha da América” é ainda uma homenagem aos escritores sul-americanos, que tanto influenciaram Amat, como Gabriel García Márquez.

«A Noite do Oráculo», de Paul Auster (Asa)

O melhor livro do norte-americano Paul Auster chegou a Portugal no final de 2004, mais uma vez com a chancela da Asa: “A Noite do Oráculo”. Excelente contador de histórias, um dos nomes cimeiros da literatura nos Estados Unidos, Auster aposta na constante luta entre o presente e o passado para tema central da sua última obra. O resultado é um livro refrescante e inteligente.

Quase 19 anos depois de “A Trilogia de Nova Iorque”, obra de estreia bastante aplaudida, “A Noite do Oráculo” está recheada com o melhor que o escritor pode oferecer ao público: um discurso simples e fluente, capaz de prender o leitor da primeira à última página. Obra-prima, claro. Por ser a última, porque Paul Auster pode (e sabe que pode) dar muito mais.

Um “morto” que regressa à vida e um amigo que deseja a sua morte. Um triângulo amoroso. O pano de fundo, disfarçado por um caderno azul, fabricado em Portugal e comprado numa loja chinesa, que dá início a um conjunto de tramas e sub-tramas hipnotizantes e que pouco têm que ver com o título escolhido por Auster para o romance. No fundo, um oráculo onde se redescobrem as relações humanas a partir do passado e não se vislumbram revelações do futuro.

É deliciosa a forma como Paul Auster descreve a relação entre o narrador, Sidney Orr, e a mulher Grace. Um dos grandes momentos do livro, que peca pelas longas notas de rodapé, com os “parêntesis” que o escritor quer afastar definitivamente do curso do livro. “Escrever não é mais uma questão de liberdade, mas de sobrevivência” (frase que ilustra o site oficial do escritor, em www.paulauster.co.uk). E nós sobrevivemos com ele.

«Filhas Rebeldes», de Manju Kapur (Presença)

À procura do controlo sobre o seu próprio destino. Para a bela Virmati e para a Índia dos anos 40 em “Filhas Rebeldes”, de Manju Kapur, livro editado recentemente em Portugal pela Presença. Um país à beira da “Partição”, da separação de uma Inglaterra em guerra com a Alemanha nazi de Hitler. Uma província, o Punjab (hoje Paquistão), em agonia depois da autodeterminação, a assistir à luta fratricida entre indianos muçulmanos e hindus. Uma jovem que luta contra o seu tempo e tradição familiar para poder estudar, ser autónoma e escolher a pessoa com quem pretende viver, contra a mãe e a mulher do amado.

Um romance cheio de sensualidade, no qual se pode saborear aos poucos a cultura de um país distante, de casamentos por anúncio ou de interesse familiar, onde um homem fala sempre para a mulher mais velha da sala, mesmo que se dirija à mais nova. Uma gastronomia que deixa água na boca, palavras deixadas pela tradução no meio do português, que aos poucos ganham sentido sem se ter de recorrer ao “maldito” glossário no final do livro.

Três gerações em discurso

Três gerações de mulheres narradas pela mais nova, a filha de Virmati. Virmati (e a Índia), a não revolucionária, a submissa, a bela, a impotente perante tudo o que lhe acontece, que ganha força com a vida, com as pessoas que a rodeiam, que a ajudam a lutar.

Um discurso embriagante por parte da escritora, que faz com que desejemos fechar o livro, guardá-lo numa mala até o voltarmos a abrir, num hotel distante, em Lahore, Tarsikka ou Amritsar, depois de termos apanhado o avião mais próximo no tempo. “Filhas Rebeldes”, primeiro romance de Kapur, recebeu o prémio da Commonwealth para a região asiática e foi nomeado pela mesma instituição para o de melhor primeiro livro e para o “Crossword Book Award”. Merece as distinções.

Sugestões de leituras (livros de 2005)

"A Filha da Curandeira", de Hernán Huarache Mamani (Presença)
Um raio transforma uma bela índia numa mulher-serpente, revela-a ao mundo e a si própria, torna-a capaz de se superar, de derrubar a sua resistência, perante o fascínio por um homem. Kandu viaja pelas crenças dos antepassados, pela sabedoria xamânica, e acaba a descobrir que o amor é a magia mais poderosa.

"As Noivas de São Bento", de Artur Portela (D. Quixote)
Ele escreve o que vê e sente do alto da calçada. As cartas revelam o homem que é e o que os outros são. Todos os destinatários são mulheres, dezenas de mulheres, sobre as quais exerce o seu poder. Uma viagem a um Portugal diferente, visto pelo olhar aguçado de quem já vai no sétimo romance.

"Nossa Senhora da Floresta", de David Guterson (Europa-América)
O autor de “A Neve Caindo sobre os Cedros” conta neste novo romance a história de uma rapariga de 16 anos, que fugiu de casa depois de ter sido violada pelo namorado da mãe e de ter abortado duas vezes. Vive de quase nada nos bosques, e a Virgem Maria aparece-lhe e pede-lhe para que construa ali uma igreja. A notícia das aparições reúne multidões nos bosques. Guterson aborda temas como a religião e a fé, e o aproveitamento que se faz sobre os mesmos. Um livro que ficou ainda mais próximo dos portugueses depois da morte da irmã Lúcia, vidente de Fátima, no dia 13.

"Os Crimes do Sino Dourado", de Robert van Gulik (Gótica)
Esta é a história de um juiz-detective que se tornou tão famoso no século VII d.C. como Sherlock Holmes foi em Inglaterra. Só que Dee Jen-Djieh foi uma personagem retirada da realidade histórica da China Imperial. O holandês Robert van Gulik, um erudito e poliglota, realizou importantes estudos sobre a cultura deste país asiático e, por isso, tornou-se no homem ideal para escrever sobre a intrigante personagem. Os crimes acontecem e o leitor acompanha o juiz Dee enquanto descobre como e por quem foram cometidos. A escrita é fácil e sem grandes floreados, o autor também não introduz doses elevadas de suspense, mas é surpreende a forma como somos transportados a um tempo tão distante de nós.

"O Calígrafo de Voltaire", de Pablo de Santis (Temas e Debates)
A moda dos thrillers pegou de estaca em Portugal. Um homem viaja com o coração do antigo mestre Voltaire dentro de um frasco e recorda as investigações feitas sob as suas ordens. O melhor do romance é a sensação criada de um mundo em que as dimensões se confundem: as máquinas e as pessoas, a realidade e o sonho. A escrita do argentino de Santos traz-nos aos dias de hoje um mundo já desaparecido, mas ainda presente, com as suas paixões, demandas e mistérios. E um enigma que nos prende até à última página.

O Livro depois do Código

“O Código Da Vinci”, editado pela Bertrand, foi um fenómeno de sucesso em 2004. Surgiram no mercado português, logo depois de terem sido conhecidos os primeiros números, outros livros. Os primeiros decifravam a obra de Dan Brown, os restantes eram outros “códigos” para seduzir o leitor nacional.

Estava descoberto um novo filão. A Presença foi a editora que se mostrou mais preparada para explorá-lo. “O Códice Secreto” foi o último dos três livros lançados no mercado pela empresa, depois de “Imprimatur - O Segredo do Papa” e “A Regra de Quatro”. Curiosamente, todos partem do mesmo ponto: livros ou documentos antigos, que revelam muito mais do que era conhecido.

O livro de Lev Grossman, “O Códice Secreto”, é ambicioso. Não é fácil misturar um jogo de computador e a investigação de um livro do século XIV, chamado “A Viage to the Contree of the Cimmerians”, mas a combinação resulta bastante bem. Edward também não é uma personagem por quem seja fácil apaixonar-se, mas as páginas vão ficando para trás e o leitor permanece ao seu lado na missão de descobrir um livro que toda a gente pensa que não existe.

As comparações com o Da Vinci de Brown são inevitáveis, mas o Códice ganha nos meios que levam a atingir o seu fim: Grossman não precisa de mortes ou de colocar o seu personagem em fuga para motivar quem lê a continuar numa busca ávida pelo final. O Códice é sobre livros e o seu poder de encerrar verdades.

Outros bons “thrillers”
“É um thriller histórico apaixonante, de grande intensidade detectivesca, que veio agitar o universo literário pelo efeito sísmico que as suas revelações – corroboradas por documentos históricos – produziram”. Não, não é do “Código” que se fala. Este é o texto de apresentação de “Imprimatur”, romance de dois italianos, Rita Monaldi e Francesco Sorti.

A partir de uma estalagem em que os hóspedes são colocados de quarentena, depois da morte misteriosa de um deles, desvela-se a Roma do século XVI, onde se cruza política, religião e espionagem, numa intriga que quer descobrir “documentos sensacionais nos arquivos do Vaticano” e em que “finalmente se revela um segredo de há séculos”. De entre o joio, este é um livro que se lê bem.

“A Regra de Quatro” também se diferencia de “O Códice Secreto” e aproxima-se de “O Código Da Vinci”. O livro de estreia de Ian Caldwell e Dustin Thomason reúne dois estudantes na investigação do “Hypnerotomachia Poliphili”. Loucura, traição e assassínio surgem durante a decifração da mensagem contida no livro e aumentam o suspense a níveis dramáticos, longe do pragmatismo de Grossman. Num ápice, forma-se para o leitor um remoinho ao qual é impossível escapar.

No dia 3 de Março, a Bertrand edita “Anjos e Demónios” de Dan Brown e o mercado português parece longe ainda de estar saturado.

«Romance com o Teu Nome», de António Rebordão Navarro (Campo das Letras)

Já à venda desde os finais de 2004, "Romance com o Teu Nome" não foi escrito para ser um "best seller". É um relato intimista que se lê devagar, com as emoções desenhadas em cada palavra, nas frases recortadas e reencaixadas entre vírgulas – que permite a Navarro dedicar-se a uma exaustiva análise das personagens - e na complexidade da luta com a saudade acrescentada pela morte.

Sugestões de leituras (livros de 2005)

"Os Impostores", de Santiago Gamboa (Asa)
Romance com o Teu Nome, de António Rebordão Navarro (Campo das Letras)
Já à venda desde os finais de 2004, “Romance com o Teu Nome” não foi escrito para ser um “best-seller”. É um relato intimista que se lê devagar, com as emoções desenhadas em cada palavra, nas frases recortadas e reencaixadas entre vírgulas – que permite a Navarro dedicar-se a uma exaustiva análise das personagens - e na complexidade da luta com a saudade acrescentada pela morte.

"O Dia da Tormenta", de Rosamunde Pilcher (Difel)
Leveza e ternura. São os adjectivos que melhor caracterizam os romances da britânica Rosamunde Pilcher. Mais do que uma história de amor, “O Dia da Tormenta” tem como pontos de partida e chegada a complexidade das relações humanas. E a bela Cornualha, terra natal da escritora, é o cenário de fundo.

"Momentos de Paixão", de Auguste Rodin e Rainer Maria Rilke (Relógio d’Água)
“Por metade chamo-te, por metade aparto-te de mim,/para não perturbar o belo encantamento;/ao escutar-te os pulsos, digo-me:/não estarás aqui?”. Poemas de Rilke para as aguarelas de Rodin. Versos que rimam com imagens. O poeta tornou-se melhor poeta quando foi secretário do escultor. Estudou a sua obra e o resultado vê-se neste livro: sensualidade em estado puro.

"Almas Antigas", de Tom Shroder (Pergaminho)
Um dos temas de sempre da humanidade: a vida depois da morte através da reencarnação. Shroder, um editor do “Washington Post”, acompanhou o psiquiatra Ian Stevenson num estudo de seis meses no Líbano, na Índia e no continente americano. O resultado é este livro, que se pretende “uma prova científica das vidas passadas”.

"Uma Outra Pessoa", de Tonino Benacquista (Gradiva)
Uma tarde, dois desconhecidos jogam ténis, o que os faz recordar os melhores momentos da juventude. Mais tarde, num bar, falam do que podiam ter sido se tivessem seguido outro caminho. Presos em vidas medíocres que nunca desejaram, Nicolas e Thierry ganham a coragem para se tornarem, por vias diferentes e dolorosas, pessoas mais próximas da personalidade que possuem. Sem grande complexidade de linguagem, é a trama que apaixona os leitores.

"Moralidade e Raparigas Bonitas", de Alexander McCall Smith (Presença)
Terceiro volume de uma série que engloba ainda “A Agência nº1 de Mulheres Detectives” e “As Lágrimas da Girafa”. Uma detective do Botswana prepara-se para desvendar uma série de crimes num relato linear e entusiasmante.

Sugestões de leituras (livros de 2005)

"Khadji-Murat", de Lev Tolstoi (Cavalo de Ferro)
O último livro do autor de “Guerra e Paz”, deixado por terminar segundo o mesmo, narra a história do mais famoso guerreiro checheno, Khadji-Murat. Sem a complexidade de acções e personagens do mais célebre romance de Tolstoi, já aqui referido, esta obra saiu ao caminho literário do escritor como mais uma reflexão sobre as ligações entre o poder, a violência e a corrupção. Murat tem um plano, acabar com a lei dos mais fortes.

"O Porteiro de Pilatos", de Jean d’Ormesson (Europa-América)
Tem como pós-título “O Segredo do Judeu Errante” e é sobre o que um sapateiro judeu chamado Ahasvérus, condenado pela dureza de coração a errar pela terra até ao Dia do Julgamento Final – a lenda conta que terá recusado um copo de água a Cristo –, tem para contar. Um casal encontra-o em Veneza e ele conta-lhes a sua visão da história do mundo desde a invasão romana da Palestina até esse dia. Um bom romance, apesar de algo confuso nos primeiros capítulos devido à quantidade de histórias paralelas. Está anunciado como o “mistério de Jesus que o Código Da Vinci não revela”.

"O Interior", de Lisa See (Livros do Brasil)
Um livro sobre as boas intenções e como estas podem ser corrompidas. Sequela de “Flower Net” (não publicado em Portugal), mas com vida independente, “O Interior” relata os esforços de Liu Hulan e David Stark em desvendar uma série de crimes cometidos em Los Angeles e Pequim e em acabar uma fraude de proporções gigantescas. Os costumes chineses do passado e do presente dão um cenário exótico à série de mortes habitual nas obras policiais.

"Os Olhos do Homem que Chorava no Rio", de Ana Paula Tavares e Manuel Jorge Marmelo (Caminho)
“A primeira luz da manhã entra no quarto. Não chega ténue, não pede licença. Invade, amarela e diáfana, a nesga livre deixada pelas coisas sólidas da natureza. Recorta-se no chão, traça um espaço luminoso de geometria vaga – e aí nasce o corpo inaugural, bonito e firme, iluminado de frente, quase irreal”. É assim que começa o último romance editado pela Caminho. Brasil, Portugal e Angola numa mistura feliz de cheiros, sabores, imagens, pessoas e palavras.

"Desconseguiram Angola", de António Valis (Celta Editora)
“Um sonho perdido, um pesadelo fútil ou uma loucura portátil”. É aviso da nota introdutória, antes de se virar a primeira página, antes do mergulho às profundezas de uma Angola marcada em tudo pela guerra. Entre linhas, as pessoas, a terra, os sentimentos, a vida... Questões sobre o carácter humano e a tendência de auto-destruição.

«Satanás», de Mario Mendoza (Temas e Debates)

Fecha-se o livro, olha-se no vazio. As imagens da última página persistem ainda com o esfregar das pálpebras. Uma frase – “Eu sou legião” – ainda ecoa quando se olha para a contracapa. Ainda treme na vista, perante a avalanche de acontecimentos, pelo desabar de encontros, pela esperada (sim, esperada) sucessão de fins que se tornam um. Três histórias, Bogotá como centro do pecado, como antro de um anjo exterminador que chega para expiar os males do mundo. Três histórias, independentes e subitamente alinhavadas, unidas, intensas.

Um pintor (Andrés) que pinta um futuro terrível em auto-retratos, um padre (Ernesto) com vocação, mas sem imunidade às tentações das mulheres, uma jovem (Maria) que abandona uma vida de amarguras para enganar homens ricos. O realismo puro em cada frase, uma miúda possuída pelo Demo que lembra Linda Blair do “Exorcista” de William Friedkin (1973), as histórias em avanços paralelos nos capítulos. O embalar para uma leitura febril. A consciência de que se está perante algo único, que não se quer deixar, pousar na mesinha de cabeceira, mas sim dar a mão às palavras até às últimas consequências. Sejam elas quais forem.

É assim “Satanás”. Uma surpresa da Temas e Debates para o início do ano, um dos melhores livros lançados em Portugal nos últimos meses. O nome não inspira a compra, a capa não tem as cores da moda. Não se vê nas montras das livrarias. Como se fosse uma obra marginal, incómoda, esquecida propositadamente pelos espaços comerciais. Mas vale a pena encomendá-lo, pedi-lo por catálogo, perguntar por ele numa feira do livro. Vale a pena porque sim. Porque o colombiano Mario Mendoza já é considerado um dos grandes nomes da literatura sul-americana, digno sucessor dos compatriotas Carlos Fuentes e Gabriel García Márquez. Porque o livro é realmente bom. Como se faltasse um pouco para ser grandioso, mas merecendo estar na primeira fila da biblioteca lá de casa.

É um livro que não se deve ler sozinho. Porque se gosta ou pode detestar-se. Porque mexe connosco. E esse é o melhor elogio que lhe pode ser feito.

«Norwegian Wood» (Civilização) e «Sputnik, Meu Amor (Editorial Notícias), de Haruki Murakami

Vinte anos depois. Finalmente. A melancolia das palavras do japonês Haruki Murakami pode finalmente ser admirada em Portugal. Uma obra-prima (“Norwegian Wood”, Civilização Editora) e um livro “para recomeçar” (“Sputnik, Meu Amor”, Editorial Notícias) estão finalmente disponíveis. Foram lançados ao mesmo tempo e a primeira nota a sublinhar-se é uma pergunta: por que demoraram tanto tempo a chegar cá?

Os capítulos devoram-se num ápice. Murakami tem esse dom. Fazer com que o tempo passe sem que se coloque a hipótese de fazer uma pausa. Partindo dos mesmos temas – a solidão, o amor impossível, as lutas interiores – o japonês criou dois livros diferentes, mas com inúmeras pontes de ligação. “Norwegian Wood” é um livro intenso e sensual, que não abandona o leitor mesmo depois de se virar a última página. As palavras são pensadas para tocar fundo na alma. A partir de uma canção dos Beatles nasce um triângulo de amor.

“Tive uma vez uma mulher,/ou será que devo dizer/que foi ela que me teve?/Mostrou-me o seu quarto,/não é bom?/Norwegian Wood (bosque norueguês)/(…) e quando acordei/estava sozinho,/este pássaro voou,/então acendi um cigarro,/não é bom?/Norwegian Wood.” É assim que começa e acaba a canção dos Beatles. E é assim que começa o livro de Murakami. É nesta solidão que três personagens (Toru Watanabe – o narrador -, Naoko e Midori) se debatem com a vida e a morte.

O aperitivo e a obra-prima

“Sputnik, Meu Amor” é um livro de um escritor maduro. Linear, simples, mas belo ao mesmo tempo. Capaz de comover também. Mais um triângulo: o narrador gosta da irreverente Sumire, que, por sua vez, se apaixona pela mais velha Miu. O título da obra explica-se nos primeiros capítulos: Miu não conhece o movimento literário “beatnik” e confunde-o com o satélite. A partir daí, a charmosa coreana toma o epíteto de “Sputnik, meu amor”.

As personagens de Murakami confundem-se entre livros: os dois narradores, Miu e Reiko, que estudaram piano na infância e tiveram de abandonar a prática, as irreverentes Sumire e Midori). “Sputnik, Meu Amor”, paradoxalmente por ter sido o último a ser escrito, é um excelente aperitivo para “Norwegian Wood”. E este último vale muito a pena.

«Anjos e Demónios», de Dan Brown (Bertrand)

“Anjos e Demónios”. É o último romance de Dan Brown a ser editado em Portugal, apesar de ter sido escrito antes de o “Código Da Vinci”, o livro que surpreendeu o mundo em 2004. Uma antiga irmandade secreta regressa à actividade para ameaçar de aniquilação o Vaticano, reunido para o Conclave de eleição do novo Papa. Uma experiência científica para provar a existência de Deus resulta numa arma de destruição maciça, a antimatéria. Os Illuminati, representantes do mundo científico, querem vingar-se das perseguições da Igreja no passado.

Robert Langdon é um especialista em simbologia religiosa chamado de urgência ao mais avançado centro de investigação científica devido a uma morte misteriosa. O ambigrama (uma palavra que se lê da mesma forma mesmo que seja invertida) Illuminati tinha sido queimado no peito de um cientista. Na companhia da filha da vítima, Robert parte na descoberta do antigo “Caminho da Iluminação” – os candidatos a membros da irmandade tinham de descobrir um caminho secreto pela cidade de Roma – a partir de um documento de Galileu.

Cinco horas para salvar a Igreja

Um Hashassin (assassino árabe que festejava as mortes com o consumo de haxixe) é contratado por Janus, o homem que se propõe erradicar a Igreja Católica do planeta. Os quatro cardeais preferidos para a sucessão ao papa morto são raptados e serão assassinados de hora a hora, junto a cada um dos quatro elementos do “Caminho da Iluminação”. A antimatéria está a horas de tornar o país mais pequeno do mundo num vazio entre fronteiras. Robert e Vittoria têm cinco horas para o impedir.

Capítulos pequenos dão origem a uma leitura rápida, sem grandes pausas para figuras de estilo como elipses ou para descrições extensas e complexas. As mais de 500 páginas são desbravadas mais rapidamente do que o esperado, o livro torna-se um filme com intervalos, ao qual se regressa sempre com o mesmo interesse. “Anjos e Demónios” não entusiasma pelo barroquismo da escrita, mas pela aura de expectativa criada pelo discurso linear de Dan Brown, que aumenta com a evolução da trama. Apesar de algumas pistas denunciarem “twists” na evolução da história, Brown consegue evitar a clarividência total do leitor antes da altura certa. Até o final lembra um filme. Norte-americano. De final feliz, claro.

Uma analogia simples em jeito de conclusão: quem gostou de “Código Da Vinci” vai gostar de “Anjos e Demónios”.

Sugestões de leituras (livros de 2005)

A Guardiã dos Sonhos, de Rani Manicka (Asa)
Um poderoso e bem trabalhado romance, que transporta os leitores até às paisagens, costumes e delícias culinárias da Malásia. As histórias de quatro gerações de mulheres são contadas por Rani Manicka neste seu primeiro livro, que junta os sentimentos de perda, amor e traição num cenário exótico, cheio de deuses, fantasmas e magia. Complexo e intenso.

Néctar, de Lily Prior (Bizâncio)
Uma sátira, enquadrada naquilo que praticamente se tornou uma corrente literária: o realismo mágico. Lily Prior conta a história de Ramona Drottoveo, uma mulher sensual, devoradora de homens, expulsa do paraíso até conseguir seduzir um apicultor que sempre a rejeitou. “Néctar” propõe ser um livro divertido, sensual, capaz de entreter e fazer rir durante mais de 200 páginas.

Máscaras de Matar, de León Arsenal (Presença)
Uma máscara maligna desaparecida volta para espalhar ainda mais violência no terror diário de um povo, os Seis Dedos. A morte e o traço realista na descrição das batalhas são constantes neste livro, que venceu o prémio internacional Minotauro, que se dedica à ficção científica e literatura fantástica.

O Dia em que Matei o Meu Pai, de Mário Sabino (Saída de Emergência)
Uma narrativa rápida, que se devora de uma só vez. O assassino conta a uma psicóloga como e por que matou o seu pai, invocando uma série de ideias religiosas e filosóficas, verdades e mentiras. A estreia em ficção do brasileiro Mário Sabino, editor-executivo da revista “Veja”.

O Caso da Rua Direita, de Carlos Ademar (Oficina do Livro)
A ficção que podia ser realidade. O investigador criminal da Polícia Judiciária, Carlos Ademar, faz neste livro um relato do que é normalmente o quotidiano de quem persegue criminosos. Uma viagem num mundo desconhecido...

Madame Sadayakko, de Lesley Downer (Bertrand)
Uma excelente biografia, resultante de uma pesquisa apurada, com uma excelente estrutura e escrita de forma a cativar o leitor. A história de uma gueixa, a primeira a viajar à volta do mundo, a tornar-se actriz no ocidente sem conseguir falar uma palavra de inglês. Foi aclamada, conheceu monarcas e artistas. E, por isso, ficou com tanto para contar, através de Lesley Downer.

Marta e Maria, de Mousette Braga (Ariadne)
Um livro que se lê de um trago. Uma poesia que não se lamenta, que rima pensamentos e ideias, e vai além da emotividade. Uma poesia de alguém que tem opiniões, caminhos diferentes. Um olhar feminino, em verso, para a vida que nos rodeia.

«O Dia em que Matei o Meu Pai», de Mario Sabino (Saída de Emergência)

“O Dia em que Matei o Meu Pai” é o romance de estreia de Mario Sabino, editor-executivo da revista “Veja”. Um livro que quer perturbar...

“’Venham-me prender. Matei o meu pai’, e desliguei o telefone”. O dia-a-dia de um assassino - com um livro chamado “Futuro”, escrito pelo próprio e transformado parêntesis no meio da trama - até ao dia do crime. Uma confissão relatada no divã de uma psicóloga, a quem se tenta impressionar. A procura de uma justificação para um disfarçado complexo de Édipo, para a força encontrada antes de desferir duas pauladas no cocuruto do progenitor. Um parricídio, contado de forma fria, quase factual, pelo filho humilhado. É assim “O Dia em que Matei o meu Pai”, do jornalista brasileiro Mario Sabino.

O assassino, que se salvou da prisão por alegada demência, procura com ajuda psicológica encontrar ele próprio as razões que o levaram a matar o pai. Ou talvez já as conheça e as viagens mentais feitas na companhia da analista sirvam apenas para alimentar o seu alter-ego. Talvez nem tudo seja verdade, como ele próprio admite depois de algumas divagações. O monólogo - será que a médica está mesmo presente enquanto relata a sua história? - continua, no entanto, por um mundo estranho, escuro e por vezes inquietante. O discurso divaga entre filosofias de vida.

Dois livros paralelos
O livro introduzido a meio do romance traz outra história, paralela. “Futuro” também trata de perversão e de morte. É outra história, também sombria, dentro da trama principal. A mente de um assassino em jeito de romance. Uma viagem diferente, ficção dentro ficção. O mesmo tema, com causas diferentes e finais semelhantes.

O escritor diz, em jeito de conclusão, em jeito de aviso aos leitores portugueses, que a boa literatura é movida pela infelicidade. E o parricida é um filho infeliz. Um marido infeliz. A soma de negativos dá, inevitavelmente, um assassino feliz.